O Natal que mora na imaginação de uma menina negra jequieense
Natal em Jequié
Em Jequié, o Natal
nunca foi branco de neve, ao contrário, é uma cidade quente, no dito popular
mais comum “um sol para cada habitante”. Nos últimos anos as ruas são
enfeitadas de luzes piscando entre postes, como se quisessem competir com o
calor forte de dezembro. Entre cenários fotográficos instagramáveis cresce o
burburinho do comércio da Praça Rui Barbosa. No lugar das chaminés, o cheiro do acarajé se
espalha entre as inúmeras guloseimas.
As cores — tantas e
tão vivas — pintam as memórias da mais tenra idade às infâncias.
Eu cresci vendo uma pequena
árvore montada na sala, improvisada no coqueiro verdinho de mainha. Dona
Zenaide enfeitava os galhos com bolas, fitas coloridas e enfeites brilhantes. O
presépio de Dona Delza reunia peças herdadas de anos anteriores, já um pouco
desgastadas, outras doadas pelas patroas em São Paulo, mas ainda cheias de
sentidos.
É curioso, hoje depois de estudar sobre muitas
coisas, mesmo sabendo da grande ilusão europeia — neve, trenó, pinheiros e
Papai Noel —, existe algo na magia natalina acesa que ainda me faz acreditar.
Talvez seja a alegria dos encontros ou apenas a esperança teimosa que o Natal
sempre trouxe. O menino Jesus na manjedoura, uma família em fuga do despotismo,
da arbitrariedade dos poderosos e os três reis magos acolhendo esta família.
Ainda me lembro da televisão
preta e branca, do especial de Roberto Carlos, das vozes misturadas, dos primos
correndo, dos adultos rindo alto depois de um gole de vinho barato. A mesa não
era farta, mas era cheia de amor: cada prato carregava o tempero de quem
cozinhou com afeto e carinho, e entre um pedaço de frango e um copo de
refrigerante, o que realmente nos alimentava era a sensação de estarmos juntos.
Hoje, quando caminho
pela cidade iluminada, percebo que parte daquelas cenas já não existe. Alguns
rostos se perderam no tempo, algumas casas mudaram de dono, outras ficaram em
silêncio. Mas basta o piscar das luzes para que o coração insista em revisitar
aquela infância. A cada dezembro, sou conduzida de volta às noites em que
acreditava que o mundo podia se renovar numa ceia simples, numa árvore improvisada
ou numa mera canção repetida.
O Natal em Jequié
nunca foi perfeito. Talvez nunca tenha sido justo, já que o consumismo sempre
brilhou mais forte que a partilha, e a desigualdade no excesso de luz das
praças. Mas foi no Natal em família que aprendi que a tradição, mesmo entrecortada
de ilusões importadas, pode se transformar em raízes fortes, profundas e
duradouras. Porque o presépio montado na sala de Dona Delza, minha falecida vó não
era apenas uma cópia distante da cena europeia: era a prova de que a fé, a
memória e a esperança podiam se reinventar na terra quente do sertão baiano,
assim como fizeram nossas ancestrais.
E, assim, a cada
ano, quando a cidade volta a se vestir de cores, rememoro que não é a
simbologia europeia apenas faz o Natal. Na
narrativa do Evangelho de Mateus (2:13-15), José, Maria e Jesus fogem para o
Egito para escapar da perseguição de Herodes, tornando-se símbolos de proteção,
exílio e resistência. É nessa lembrança que o Natal renasce — quente, colorido
e cheio de vida, exatamente como acontece em Jequié.
Fabiana Correia
Moura
Pedagoga - Escritora
Mestra e Doutoradnda em Ensino de Ciências e Matemática
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