A OITAVA TEMPORADA DE OUTLANDER ANUNCIA O FIM DE UMA ERA DE APAIXANODOS!?
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OUTLANDER, AMOR, HISTÓRIA E AS QUESTÕES QUE A FICÇÃO NÃO DEVE SILENCIAR
Outlander chegou à sua última temporada, e confesso que imaginei que ainda acompanharíamos, por muito mais tempo, os desfechos de Claire e James Fraser através das viagens, dos conflitos e das diferentes temporalidades que marcaram a série. Desde 2018, esses personagens passaram a fazer parte da vida de muitos espectadores brasileiros, graças à obra da escritora norte-americana Diana Gabaldon.Mas a literatura, o cinema e a arte não existem apenas para nos entreter. São também formas de interpretar, questionar e ressignificar a realidade. E é justamente por isso que me chama atenção a forma como a questão racial aparece em Outlander, especialmente por meio da personagem Mercy Woodcock, interpretada pela atriz Gloria Obianyo.
Mercy é apresentada como uma mulher negra livre na Filadélfia colonial, viúva de Walter Woodcock, um homem negro e soldado do Exército Continental. Na sétima temporada, sua história se entrelaça à de Henry Grey, dando origem a uma relação que, à primeira vista, pode ser lida como uma história de amor capaz de desafiar as barreiras impostas pela sociedade. É aqui que a ficção também precisa ser interrogada.
A história de amor entre Henry e Mercy não acontece em condições de igualdade. Henry só passa a enxergar Mercy de outra maneira depois de ser ferido, mutilado pela guerra e cuidado por ela. E isso nos leva a uma questão incômoda: por que, tantas vezes, a literatura recorre ao sofrimento, à fragilidade ou ao rebaixamento momentâneo do homem branco aristocrático para torná-lo “humano” o suficiente para reconhecer a humanidade de uma mulher negra? Em muitas narrativas, o afeto não nasce exatamente do reconhecimento da igualdade, mas de uma relação de dependência. A mulher negra aparece como aquela que cuida, salva, cura e ampara. Sua humanidade é reconhecida, muitas vezes, justamente quando ela serve de conforto para o sofrimento do outro.
É a permanência de um imaginário que precisamos questionar: o da “serva salvadora”.
E talvez seja por isso que discursos contemporâneos que insistem em romantizar as relações raciais no passado precisam ser recebidos com muito cuidado. No Brasil, ainda convivemos com interpretações que recorrem, direta ou indiretamente, ao mito da democracia racial, suavizando relações históricas profundamente marcadas pela escravidão, pela violência e pela hierarquia racial.
É importante lembrar que a história das mulheres negras brasileiras não pode ser contada apenas pela lente do romance, da conciliação ou da suposta harmonia entre as raças. Como mostram estudos sobre a história das mulheres no Brasil, mulheres negras foram submetidas à exploração e à mercantilização de seus corpos e de sua força de trabalho.
Por isso, assistir a Outlander também pode ser um exercício de leitura crítica.
Podemos nos emocionar com Claire e Jamie. Podemos acompanhar as guerras, os conflitos políticos e os romances. Podemos até torcer por Henry e Mercy.
Mas não precisamos desligar o senso crítico para amar uma obra de ficção.
Porque a arte também nos permite perguntar:
quem pode amar? Em quais condições? Quem precisa cuidar para ser reconhecida como humana? E que histórias sobre raça estamos romantizando quando olhamos para o passado?
Vale muito a pena assistir às oito temporadas de Outlander. Mas, vale ainda mais assistir questionando, refletindo e recusando as romantizações que a história tantas vezes tentou nos ensinar a aceitar.
E você, já assistiu Outlander? Qual personagem ou história da série mais fez você refletir?
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